Quando a SÁBADO lhe mostra as declarações da antiga funcionária da PIDE à justiça, nas quais esta desmente o seu depoimento, inquieta-se, agita-se na cadeira, deixa escapar o desabafo, quase imperceptível, e depois leva logo as mãos à boca como quem pede desculpa. Conceição Matos tinha 29 anos quando foi detida no Montijo.
«Fala ou não fala, sua puta?», perguntava Madalena, enquanto a despia, peça por peça, com a ajuda de uma colega. Uma dezena de homens da PIDE entrou na sala, para ver uma mulher sem roupa, que tentava esconder-se atrás de uma secretária mas era puxada pela agente Madalena, para ser vista por todos. « Se eu ficar mais tempo espatifo-a toda.» São as últimas palavras que a militante comunista se lembra de ter ouvido de Madalena. Quando falou com a SÁBADO, nem sabia que Madalena já morreu há seis anos.
Conceição Matos foi uma das cinco pessoas que testemunharam contra Madalena Oliveira no Tribunal Militar, em 1977, de acordo com o processo consultado pela SÁBADO no Arquivo Histórico-Militar. Maria Madalena Castanha, camponesa analfabeta do Couço, no Ribatejo, acusou a ré de lhe ter dado uma «sova assustadora», que a deixou a sangrar do nariz e com várias feridas na cara, provocadas pelo impacto dos anéis de Madalena na sua pele. «Esta está à Camões», terá dito Madalena quando a viu já com um olho negro, depois de ter sido espancada por outra agente por se recusar a comer. «Madalena Oliveira e os seus advogados foram desmentindo ao longo do processo que tivesse torturado qualquer presa e alegaram que todas as testemunhas de acusação estavam a ser manobradas pela «máquina montada pelo PCP» em busca de uma vingança contra a perseguição da PIDE. »
A promoção foi justificada com «méritos extraordinários» num despacho assinado pelo director da PIDE, Silva Pais, em 1968, quando Madalena tinha apenas 31 anos. Filha de uma doméstica e de um electricista, e sobrinha de um simpatizante comunista que passava informações à polícia, Madalena Oliveira entrou na polícia política como escriturária em 1955. Madalena Oliveira descobriu, entretanto, que o marido tinha outra família no Minho, com várias crianças, uma das quais nasceu na mesma altura que o seu filho. «Ela chegou a ter os óculos postos noite e dia para disfarçar os olhos pretos, por causa das murraças que ele lhe dava», recorda Maria Lucinda, 61 anos, uma das melhores amigas de Madalena desde a infância e sua testemunha de defesa no julgamento – ainda se recorda do alarido das sirenes e polícias armados que rodeavam a ré à chegada a tribunal.
«Pensei que vinha lá uma assassina e afinal era a minha Nani.» Era esta a alcunha da agente Madalena junto da família, onde nunca foi conhecida por Leninha.
O filho da agente, Luís Marques, 53 anos, lembra-se de que a mãe aproveitava a regalia de não pagar bilhete no cinema para ir ver todos os filmes de acção, violência e espionagem. Madalena Oliveira andava sempre com a pistola na mala, desde que passou à categoria de agente, em 1961 – foi nessa altura que as mulheres entraram em força na polícia política, para substituir os agentes destacados em comissões de serviço para África, por causa da guerra colonial. O seu trabalho principal quando deixou as tarefas burocráticas passou a ser o acompanhamento e vigilância de detidas. « Depois vinha o inspector mais responsável pela instrução do processo, para fazer as perguntas», explica à SÁBADO a historiadora Irene Pimentel, autora do livro A História da PIDE.
Citado no livro Memórias da Resistência Rural no Sul, Couço 1958-62, de Paula Godinho, Jerónimo Bom conta que a agente Madalena o despiu e lhe mexeu em todo o lado, chamando-lhe «paneleiro e panasca» para o humilhar. «A raiva dela crescia, massacrava-me com insultos, era a agente mais malcriada e mais violenta, mas ainda não me tinha tocado». Eugénia foi presa depois de o marido ter liderado o «golpe de Beja», um assalto ao quartel daquela cidade para iniciar o derrube do regime de Salazar. « E o murro que eu ia levar ficou no ar», conta à SÁBADO Eugénia Varela Gomes, actualmente com 83 anos, 47 depois de ter estado presa.
«Era muito salazarista», admite à SÁBADO o filho de Madalena, Luís Marques. Quase 30 anos depois, quando o ditador morreu, em 1970, a chefe de brigada ficou transtornada com a notícia e fez questão de participar no velório. Actualmente ainda há uma estatueta de Salazar exposta no armário principal da sala da casa que Madalena habitou até morrer, há seis anos, e que lhe foi oferecida pelo filho. «Um deles foi preso mais tarde por ser informador da PIDE», recorda Luís Marques, que afugentou os assaltantes – e acha que o informador estava a tentar evitar a própria detenção.
A 28 de Abril de 1974, precisamente 85 anos depois do nascimento de Salazar, foi Madalena Oliveira quem se entregou na esquadra da PSP de Oeiras. Enquanto esteve em Caxias com as outras funcionárias da PIDE manteve a hierarquia e era uma espécie de líder das presas, segundo a descrição de uma testemunha detida nessa altura . Madalena contou depois à nora que impediu várias presas ligadas ao MRPP de serem espancadas na cadeia depois do 25 de Abril. Quando cumpriu dois anos de prisão preventiva, foi-lhe concedida liberdade condicional e Madalena fugiu – conseguiu passar a fronteira no carro de um amigo e instalou-se com o filho em Madrid.
Madalena escreveu então ao cônsul de Portugal em Madrid a admitir que tinha «abandonado precipitadamente o país» e que queria regressar.
Madalena saiu da cadeia a 16 de Dezembro de 1977. Já passaram 44 anos desde que foi despida e agredida, mas Conceição Matos não se esquece. Admite que dificilmente resistiria a insultar a PIDE Leninha se a visse na rua, tal como chamou instintivamente «malandro» e «bandido» quando se cruzou por acaso com o informador que a denunciou. Madalena Oliveira não resistiu a um cancro nos ovários e morreu a 22 de Novembro de 2003. Artigo divulgado pela revista Sábado.

Pesquise neste blogue:
Comente com o Facebook: