Encontramos este relato num artigo publicado pela visão em 2016. A impressionante história de Lana.
Lana tinha dez anos quando foi vendida por mil euros pela própria mãe. Foi espancada, forçada a roubar, obrigada a dormir com dois homens. Lana tem dez anos e esta noite vai dormir com um homem. Não foi isso que a mãe prometeu quando lhe contou que iria ser levada de avião para a Irlanda, teria uma nova família e nunca lhe faltaria nada.
Lana vai aprendê-lo esta noite. Mal o avião aterrou na Irlanda, contaram-lhe que aquele homem na verdade, ainda nem um homem, um adolescente de 15 anos que nunca tinha visto seria o seu marido. «'» Lana jamais o teria escolhido. Ao fim de pouco mais de um ano de agressões com paus e cabos dobrados, Lana mal conseguia andar.
Nunca soube quem era. Bem que a foi buscar ao hospital quando a mãe a quis abandonar à nascença e bem que dela cuidou até aos dez anos, mas entretanto mudara-se para França. Restava-lhe uma mãe com quem vivera apenas dois meses e que a empurrara para a servidão. O cansaço era tanto, a saúde tão frágil, que durante uma semana Lana não conseguiu sair da cama.
Sentada na ponta da cadeira, de tronco tombado sobre o colo da mãe emprestada, Lana fala muito rápido, tão rápido que às vezes ninguém na sala da casa-abrigo a entende.
« A mãe sabe o que é melhor para ti.» Lana sai com as suas roupas e com o passaporte. Faz calor, um calor anormal para a primavera, como se alguma coisa ardesse à superfície da paisagem que deixa para trás. A controlá-la, sentado ao seu lado no autocarro, segue um romeno corpulento de quem nada sabe apenas que se chama Marius e que pelo aspeto terá pouco mais de 30 anos. Colada ao vidro a ver passar a terra que a expulsa, pergunta-se como será esse lugar para onde a levam.
Menos de dois anos depois da primeira viagem, Lana está de regresso à rota do tráfico. E vestir, cuidar e dar de comer a quatro dos então seis filhos do casal Lucia e Marius, com idades entre um mês e 12 anos de idade. Lucia e Marius vão inventar uma desculpa terem ido à Roménia renovar documentos para recuperarem a guarda da criança. Ainda naquele dia, Lana é apresentada àquele que será o seu segundo marido.
Também se chama Marius, como o pai. Lana faz finca-pé. No final de 2010 Lana está em pânico com a sua primeira menstruação. Daí em diante, pelo menos uma vez por semana, e durante quase quatro anos consecutivos, vai ser violada pelo novo marido.
Quando ousar dizer que não o quer, alguém dentro de casa o próprio Marius, ou o sogro ou a sogra vai puxar da sua força mais bruta e bater-lhe até ela parar de se queixar. Ninguém a vai ouvir chorar enquanto fingirem que são marido e mulher.
A primeira medida da família para impedir Lana de desaparecer foi esconder-lhe o passaporte e a certidão de nascimento. A qualquer hora, Lana tinha de estar disponível para cuidar da casa ou das crianças. Se aquecesse demasiado o leite do bebé -porque tinha 12 anos e ninguém lhe ensinou como medir a temperatura, era espancada. Como se fosse pouco o que fazia, a menina ainda costumava ajudar uma mulher que vendia velas no cemitério ou as que iam lavar as campas dos familiares.
Por momentos, com este disfarce, podia vestir-se como as adolescentes da TV. Os sogros viviam em Portugal desde 2009, e embora na terra conhecessem o pai Marius como vendedor de carros, nenhum deles declarara quaisquer rendimentos ou ocupação profissional. «Morria de vergonha por ter de roubar a quem trabalhava. Eles diziam que tinha de ser assim, mas eu sabia que podia não ser», lembra Lana, agora com 19 anos, tão rejuvenescida, com o seu cabelo finalmente livre e solto.
Chegou a ser apanhada a roubar, ouvida pela polícia e presente a tribunal. A 7 de agosto de 2014, pelas cinco da tarde, a sogra exigiu-lhe que fosse roubar ao minimercado. Meses depois, a 18 de dezembro, ao negar-se novamente a roubar, Lucia agarrou-a pela cabeça, empurrou-a contra a porta de entrada da casa e voltou a usar um pau para lhe bater nas pernas. Lana ficou com duas escoriações no crânio, um hematoma na face e outro na perna.
Nesse mesmo mês, já o marido tinha aparecido no café da dona Paula e provocado uma cena de ciúmes. Depois, enxotou-a até casa como um cão tinhoso, enquanto a enchia de murros e a sacudia com pontapés. Na sala pequena onde recorda tudo, Lana solta um grito quando cola as suas mãos quentes às mãos frias de Madalena.
Lana entra na mercearia da dona Fátima a chorar convulsivamente. A custo, acaba por confessar estar a fugir de Lucia. Está cansada, não quer roubar mais muito menos a quem, como ela, é sua amiga e pede-lhe ajuda para denunciar o caso à GNR. E também as nódoas negras que aqui e ali descobria em Lana.
Pergunta-se como não percebeu logo a história. E quando finalmente confrontaram Lucia e Marius com a existência de mais um elemento no agregado familiar, foram na cantiga de que Lana era fruto de uma relação extraconjugal de Marius, e que nunca a assumiram porque não tinham documentos válidos. Em frente aos militares da GNR, Lana não tem coragem de desmentir essa versão, queixando-se apenas de ser vítima de maus-tratos. A sorte é que naquela mesma tarde 19 de dezembro de 2014 a GNR bate à porta e obriga Marius a entregar os documentos que até então tinha escondido.
Lana, a quem a vida deu razões para não confiar em ninguém nem acreditar em novas oportunidades, quis salvar-se. «Sempre confiei muito em Deus, rezava muito nas igrejas sozinha. » Pela primeira vez não teve medo o desconhecido não poderia ser tão horrível como o que já conhecia. Naquele dia, Lana já não voltou a casa.
Foi preciso vasculhar os registos do hospital, em Santa Maria da Feira, e desencadear um imenso trabalho de investigação para se descartar a hipótese de que Lana, perturbada pelos últimos desenvolvimentos, não estaria a alucinar. Havia registo de um parto, sim, em 2012, mas de Iasmina, personagem até aqui desconhecida, filha mais velha de Lucia e Marius, residente em Espanha. A unidade da PJ que investiga crimes de tráfico de seres humanos no norte do País e que tomou conta do caso de Lana descobriu que o casal usara os documentos da filha verdadeira para dar entrada com a falsa filha no hospital, imediatamente antes do parto. Foi a primeira vez que Lana entrou num hospital.
Até hoje Lana não afasta a ideia de que isso aconteceu porque o pai da criança nunca se coibiu de lhe dar enxertos de pancada, acertando-lhe em cheio na barriga onde o bebé crescia. Depois do parto, Lana mal conseguiu ver a filha. Lucia convenceu a unidade de neonatologia do hospital de que era a avó materna da criança e que o pai teria ido viver com outra mulher para a Roménia, deixando a companheira desamparada, sem dinheiro e com um filho no ventre. «Não tens casa, não tens dinheiro, como vais tu criá-la?» Ninguém no hospital nem nos serviços de proteção de menores desconfiou que estaria a ser usada uma falsa identidade.
Lucia assinou os documentos que eram necessários. Sem o consentimento de Lana, a bebé foi deixada no hospital e posteriormente adotada, num processo que nenhum tribunal terá coragem de reverter. Lana foi proibida pelos sogros de procurar a filha. Aproveitando o internamento, Lucia impôs-lhe ainda que colocasse um implante anticoncecional.
Marius queria continuar a violá-la, pelo menos uma vez por semana, sem riscos de a voltar a engravidar. Naquela altura, já a própria Lucia carregava também uma barriga visível. Como aliás viria a acontecer desde os primeiros dias, quando o levou para o quarto de Lana. Este foi um dos episódios que mais chocou o procurador do Tribunal de Santa Maria da Feira, quando acusou Lucia e os dois Marius, pai e filho, de centenas de crimes de tráfico de pessoas, violência doméstica, escravidão e violação agravada, em janeiro deste ano.
Chamo-me Lana. Tenho 17 anos, não sei quando serei maior de idade. Lana está finalmente perante o juiz do Tribunal de Família e Menores, que não tem dúvidas de que passou por graves violações dos direitos humanos quando lhe negaram o direito à escolaridade, à saúde, à identidade, a ter um filho. Lana é um prodígio da superação e do triunfo.
O mais certo era ser desinteressada, desatenta, mas não é isso que se percebe quando fala português e usa certeiramente os provérbios. Podia ser amarga e desconfiada, mas distribui abraços pelas técnicas como se as conhecesse e as amasse desde sempre. Era previsível que fosse sisuda e triste, mas não é isso que se vê quando se ri com os olhos, com as bochechas e com os dentes. Meses depois de ter deixado a casa de Lucia e Marius, e perante as ameaças contínuas dos agressores, a PJ decidiu apertar as medidas de segurança, dar-lhe o estatuto de vítima de tráfico de seres humanos e reencaminhá-la de um lar de infância e juventude para uma casa-abrigo de localização secreta, onde permanece até hoje.
O outro Marius, marido forçado de Lana, ainda não foi julgado por se encontrar em paradeiro incerto. « Tiraram-lhe tudo, até um filho.» A primeira coisa que Lana fez quando chegou à casa-abrigo foi mudar de aparência até ficar irreconhecível. Lana, que não saía do espelho, não se importou. Agora já podia mudar as vezes que quisesse.
Era agressiva, respondona, falava muito alto. «Ensinaram-me a ser bem-educada», diz, muito séria, sem que haja qualquer ironia na sua frase. « Agora ensinam-me como comportar-me.» É muito mais do que isso. «Agora ajudam-me a construir uma vida», diz, e larga um sorriso tão grande, tão grande, que os olhos quase tocam nas maçãs do rosto.
Na escola que frequenta de segunda a sexta aprende as letras e os números como quem começa agora, e também artesanato, cerâmica, e as atividades da vida diária, como limpar uma casa ou cozinhar ter sido escrava metade da vida não significa que soubesse realmente fazê-lo. «Gostava muito de arranjar uma vida, uma casa para mim. Quero muito, muito trabalhar. Podia ir para um café, ser ajudante de cozinha ou cuidar de bebés ou crianças.» Diz que na casa-abrigo aprendeu «as coisas boas da vida», ganhou uma avó e a tal mãe emprestada de quem não larga a mão durante a conversa e que quase sufoca quando a aperta nos seus abraços.
Quando saiu da casa de Lucia e Marius teve um primeiro instinto de ligar para a mãe, na Roménia. A voz embargada só aparece quando explica quem é agora. « Gosto muito da minha vida nova e da minha família. Gostam muito de mim e eu gosto muito deles.
Sinto-me muito feliz.» E os olhos, brilhantes como cálices, faíscam de alegria e lágrimas. Como deixou a antiga vida a uns dias do Natal de 2014, o turbilhão era tal que nem deu pelo passar da época. Lana tem 19 anos e esta noite não vai ter de dormir com um homem que não escolheu.

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