Quando o novo coronavírus apareceu, em dezembro passado, a suspeita sobre a sua origem caiu sobre o mercado de Huanan, em Whuan, na província de Hubei.«Há sempre alguma coisa que acontece na época do Natal. Há sempre algum alerta ou sinal de um caso suspeito. Nos últimos anos, tem sido o Mers – um caso suspeito que viajou para a Malásia ou Indonésia ou Coreia ou qualquer outro lugar na Ásia, vindo do Médio Oriente. Portanto, há sempre algum tipo de sinal. Há sempre alguma coisa que acontece», disse.

«Normalmente não é nada de extraordinário. Mas desta vez foi diferente», acrescentou.

Quando a epidemiologista recebeu aquele e-mail, já pelo menos 124 pessoas tinham ficado doentes e algumas tinham morrido na província de Hubei, na China, depois de contraírem o vírus. Em fevereiro, a Organização Mundial de Saúde começou a investigar a origem do surto, conversando com as primeiras pessoas diagnosticadas e com as suas famílias e colegas, disse Bruce Aylward, médico e epidemiologista nomeado para liderar a investigação. Desde o momento em que desembarcou na China, Aylward sabia que estava a lidar com uma coisa muito séria, que o resto do mundo não estava a entender. O epidemiologista ficou, de imediato, impressionado com a seriedade com que o governo chinês estava a encarar o surto e com o custo que isso traria para o país.

Mas, nessa altura, a China estava a fazer o que precisava e que tantos outros países não fizeram – perceber de imediato a ameaça de saúde pública que o país enfrentava e procurar erradicar o vírus antes de descobrir a sua fonte.

De acordo com o The Guardian, o paciente zero não foi identificado, devido ao facto de a covid-19 se manifestar através de um quadro sintomático similar a uma pneumonia aguda, matando pessoas idosas e frágeis – o que terá atrasado a sua descoberta. Algumas pessoas teriam sido infetadas já em meados de novembro e, das 124, quase todas se encontravam na capital da província de Hubei, Wuhan.

No dia 11 de janeiro, dia em que foi relatada a primeira morte, cientistas chineses revelaram a sequência genética do novo vírus – que, juntamente com outras publicadas entretanto, mostrou que o SARS-CoV-2 poderia, afinal, ter origem em morcegos-ferradura. As amostras colhidas após a síndrome respiratória aguda grave de 2002, SARS-CoV, mostraram que o vírus de morcego RaTG13 é 96% semelhante ao novo coronavírus. Em março, os virologistas Eddie Holmes e Andrew Rambaut publicaram uma revisão, na revista Nature, sobre aquilo que pode ser deduzido acerca da origem do vírus através dos dados genéticos. De acordo com os investigadores, a proteína spike do SARS-CoV-2 tem um «domínio de ligação» que se fixa a um determinado recetor – chamado ACE2 – de uma célula humana, mas os vírus provenientes de morcegos não a têm.

A OMS considera muito importante descobrir quais são as espécies que podem ser intermediárias e, principalmente, se poderá existir um reservatório do vírus e, até agora, estudos realizados em vários países mostraram que gatos domésticos, furões, hamsters e visons são particularmente suscetíveis à infeção. Sem conclusões definitivas, também o laboratório de biossegurança do Instituto de Virologia de Wuhan se viria a tornar num dos suspeitos da origem do vírus. «As nossas análises mostram claramente que o Sars-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus propositadamente manipulado», disse Kristian Andersen, principal autor do estudo. A ideia de que uma pessoa foi infetada no laboratório e que espalhou o vírus pelo mundo inteiro é coisa de cinema, acrescentou.

A verdadeira origem do vírus continua, no entanto, por descobrir e a China alega que terá surgido noutro país, sendo posteriormente importado. «Embora a China tenha sido a primeira a relatar casos, isso não significa necessariamente que o vírus tenha origem na China», disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, numa entrevista em novembro. Artigo avançado pelo site ZAP.